Tem dias na sua vida que você sabe muito bem o que você fez. O dia 20 de janeiro de 1991 é um deste dias. Eu estava no Rio de Janeiro (nunca pensei que moraria aqui anos depois), estava cansado pra caramba, depois de uma noite no Maracanã com um belo show do INXS no Rock in Rio II. Acabei acordando tarde, na casa do Edson na Urca, e depois de devorar um café da manhã/almoço, sai para o Maracanã mais uma vez para o meu segundo dia no Festival.
Confesso que estava puto de não ver Robert Plant e ter que agüentar mais um show do chato do Billy Idol, mas era foda estar no Rock in Rio (festival que minha mãe não me deixou ir em 85 porque era novinho).
20 de janeiro de 1991 era o dia do Guns. Os caras iriam dominar a cena. Banda no auge, discos de sucesso, etc. Mas um pouco antes, mais precisamente dois shows antes, uma banda da Califórnia mostrou como uma noite pode ser histórica.
Acredito que os quase 100 mil malucos que compraram ingresso para aquele dia não compraram pelo Faith No More. A MTV ainda pegava em UHF em São Paulo, o sinal lá em casa era uma merda, os caras tocavam pouco na 89 e na 97FM, não tinham nenhum grande hit até aquele momento,etc. Na idéia original, os caras seriam um esquenta para Plant e Guns. Na época pré–internet e de dureza extrema, era difícil saber o que iria ver naquele 20 de janeiro.
Mas quando os caras entram no palco, Mike Patton mostrou com se escreve a história. A bando tocou alto (mesmo com a limitação de som) e Mike fez uma das maiores (se não a maior) exibição que vi de um band leader. O cara dominou o palco do Maracanã como se estivesse em um pequeno clube de LA. Destruiu tudo, cantou, correu, se jogou no chão, escalou as torres de iluminação, destruiu tudo e deixou 100 mil pessoas chocadas com que acabaram de ver. Ai foi foda para o Guns, que fez um belo show mas que pareceu burocrático sob o impacto de um furacão duas horas antes.
Nascia ali, em 20 de janeiro de 1991, 10 dias antes dos meus 19 anos, a lenda Faith no More e o amor incondicional do Brasil com a banda.
Um pouco depois deste show histórico, eles voltaram para uma turnê pelo Brasil e voltei a ver a Banda no Olympia, em São Paulo, o show foi bom demais, com os caras fechando com War Pigs do Sabbath, o único problema agüentar a abertura da banda “heavy” do Menudo Robby Rosa (nunca vi alguém ser xingado tanto quanto o Menudo, ele saiu antes do fim). Em 1995, mais um show, no Monster of Rock., abrindo para o Ozzy (este eu não vi).
Bom, ontem os caras voltaram ao Rio. Quase 18 anos depois da porrada no Maracanã, eles tocaram para um Citybank Hall, com 60% da capacidade. Não dá pra negar que os caras estão mais velho. Roddy Buttom parece que saiu de um happy hour meio bêbado e foi tocar teclados na banda do bar. Mas, e daí?
A cozinha continua perfeita com Mike Bordin destruindo as baquetas e Billy Gould acabando com o baixo (que estava batendo forte no peito de todo mundo). O som do Citybank é o melhor do Rio e ontem estava especialmente alto e muito bem equalizado.
Com a casa armada e platéia entregue, coube a Mike Patton, vestido de vermelho como o próprio demônio, dar show. Ontem ele não escalou nada, mas dominou o público como pouco dominam. Cantou em português, desceu no público, usou todos os tons possíveis de sua voz, foi Julio Iglesias e Iggy Pop juntos. Não tem como você não ser dominado pelo cara.
E com o jogo ganho desde o primeiro acorde, a galera fez a festa. Uma hora e meia de show que terminou com Falling into Pieces (só para o público do Rio)> dava pra ver que não estava ensaiado, dava pra ver que estava quebrado, mas também dava pra ver que os caras estavam com muito tesão de estar naquele palco tocando e se divertindo. E é isso o que vale no Rock, é isso que faz um show ser bom. Diversão!
Set List: Midnight Cowboy From Out of Nowhere Be Aggressive Caffeine Evidence Surprise (You e Dead) Last Cup of Sorrow Ricochet Easy Epic Midlife Crisis Caralho Voador The Gentle Art of Making Enemies King For a Day Ashes to Ashes