Fernanda canta o Rei na versão de Nara. Meu cabelo está comprido e com alguns caracóis. Também tenho vontade de ficar mais um instante. Caralho!!! Faltam apenas 5 dias. É logo ali, na sexta. 5 dias! To tenso, nervoso, pilhado, estressado e feliz! Feliz pra caralho!
Estava lá. O terror da guerras, os corpos esquartejados, a dor, a agonia, o olhar perdido sem esperança, o lado mais terrível e escuro da alma humana. Tudo estava alí, retratado em preto e branco, em traços tortos, duros, mas belos, feitos por Pablo Picasso, em 1937, para representar o massacre de um pequeno vilarejo espanhol pela força aérea alemã em apoio a Franco.
A história conta que "Guernica" foi produzida, originalmente, em razão da morte de um amigo de Picasso, o toureiro Joselito, mas o pintor teria renomeado o quadro, diante de encomenda recente de algum quadro para a Exposição Universal de Paris, de 1937. Picasso, então, sabendo do recém-ocorrido bombardeio da cidade de Guernica pelos nazistas, renomeou o quadro, acreditando encontrar na tela elementos que justificassem fazê-lo, e enviou-o à Exposição, onde fez muito sucesso e se tornou conhecido pelo nome de "Guernica", e famoso como representativo do ataque nazista à cidade espanhola.
Naquela tela de 3,50 por 7,82m, Picasso retrata pessoas, animais e edifícios destruídos pelo intenso bombardeio da Luftwaffe, a força aérea nazista. Analisando criticamente, a composição desta obra retrata as figuras ao estilo dos frisos dos templos gregos, através de um enquadramento triangular das mesmas. O posicionamento diagonal da cabeça feminina, olhando para a esquerda, remete o observador a dirigir também seu olhar da direita para a esquerda, até o lampião trazido ainda aceso sobre um braço decepado e, finalmente, à representação de uma bomba explodindo.
Vendo pelo lado passional, o encontro com "Guernica", no Reina Sofia foi muito especial. Na sala, crianças ouviam o professor contara história daquele quadro, a história daquele lugarejo, daquele país, das transformações vividas por aquele povo. Do preto e branco da era Franco, da ausência de cor, de liberdade, da possibilidade de sonhar de sentir, de viver plenamente, para aquela quarta-feira cheia de cor, de vida, de calor. Ali, ao lado daquele grupo, eu fiquei quieto, absorvendo o espanhol, me deixando levar, como aquelas crianças, para um plano, me deixando levar pelos traços, pela dor, pela emoção de uma obra prima.
Aquela mulher azul parecia estar nua. Durante as madrugadas frias ela era a sua única companhia. Era com ela que compartilhava os segredos e fofocas do condomínio. Com ela ele reclamava da má educação do pessoal do 502, ou da vida complicada do pessoal do 203. da falta de dinheiro do 101, dos problemas de drogas do 402, das visitas estranhas que o 603 recebia e da filha do 703 que foi pega com o menino do 503 na escada de serviço.
Com aquela mulher esvoaçante ele se dava a liberdade de sonhar. Para ela, ele confessava seus segredos, seus sonhos, a vontade de largar aquela portaria, de deixar o prédio aquele cubico de 2X3 ao lado do motor do elevador. Não agüentava mais aquela vida, já estava lá há 20 anos, e sempre com ela ao seu lado. Não entendi porque ela se chamava Matisse, achava estranho aquele nome, ainda mais para uma mulher azul, e imaginava que, se tivesse uma filha, se algum dia alguma mulher se apaixonasse por ele, casasse com ele e engravidasse dele, gerando uma menina, esta menina seria Matisse.
Durante 20 anos, naquela portaria, esta paixão não veio e os dentes, os dedos, os pelos do bigode, o papel da pintura, seu coração foram ficando amarelos, como as putas que ele encontrava na praia, como as fotos das playboys que ele recolhia do lixo do 401, como os vidros do mosaico do hall de entrada. Mas apesar da sujeira, do tempo, das rugas, das traças, do bolor no teto, da infiltrações no piso, da imitação de madeira de fórmica descolando das paredes, do tempo perdido entre o passar da portaria, a esperança existia, em forma de um quadro, de sua única companhia, que despia azul.
Para muita gente o que aconteceu ontem no Maracanã foi mais um "Maracanazo". Eu não concordo. A distância da derrota brasileira em 1950, na final da Copa, em casa, fez com que qualquer derrota de um time seja comparada àquele fato.
Ontem, uma um só torcida chorou no Maracanã, em 1950, quem chorou foi um país. Ontem eram 90 mil, em 1950, mais que o dobro. O Fluminense vai ser recuperar em no máximo um mês desta derrota, em 1950, precisamos de 8 anos para perder o "complexo de vira-latas".
Lembro quando criança de ouvir meu tio Pepe contar a história da final de 1950. Ele contava a saga de quem deixou São Paulo, de carro, pegou a Dutra, ainda em mão única e foi para Rio ver a Seleção. Meu tio esteve no Pacaembu naquela Copa para ver o empate da Seleção contra a Suíça e, nem aquele jogo, tirou a fé de que o título era nossa. Ele contava que ficou hospedado em Copacabana, a uns 3 quarteirões da praia e contava que na manhã seguinte a chegada, olhou para a rua e viu que algo aconteceu de estranho com o carro. Ele disse que parecia que tinham cortado o carro em dois. Quando desceu viu que tinham lavado só metade do carro e que um 'flanelinha" (que já existiam naquela época) se aproximou oferecendo para lavar a outra metade por um trocado.
Os casos do Tio Pepe eram detalhados. ele falava da praia, da ida ao Maracanã, do mar de gente que rodeava o estádio, do clima da torcida antes do jogo, de como ele quase viu a partida de lado de tanta gente que estava no Maraca, da festa do gol do Brasil, da festa mesmo depois do empate e do drama após o gol de Ghiggia. Dos minutos que se seguiram até o apito do juiz, da total apatia da torcida, do desespero sem forças para o incentivo final. Meu tio falava do drama, do silêncio, do choro, dos passos lentos nas rampas de acesso no Maracanã, como em um cortejo fúnebre. Dos 200 mil de olhares perdidos, de corpos sem vida, cheios de dor, compartilhando no mais absoluto silêncio e respeito aquela perda inexplicável.
Mas a imagem que mais eu guardo na memória da história do Maracanazo contada pelo meu tio aconteceu já no caminho de volta. Depois de deixar o Maracanã, meu tio pegou o carro, estacionado em uma rua da Tijuca e seguiu direto para São Paulo. Ele contava que pelas ruas do subúrbio do Rio, passando pela baixada fluminense, ele continua a encontrar, por quilômetros e quilômetros, aquele mesmo cortejo fúnebre, com pessoas sempre chorando acendendo velas nas janelas, iluminando a mais negra das noites. E esta cena continuou pelas cidades às margens da Via Dutra até a chegada ao Jabaquara, mais de 12 horas depois do fim daquela partida.
Esta é a imagem da final da Copa de 1950 pra mim, a imagem de um multidão entre o Rio e São Paulo, tentando iluminar com poucas e fracas velas, a escuridão da maior de nossas derrotas.
Ontem não! Ontem os tricolores choraram mas teve festa no Clipper, do lado de casa, e a festa foi até as três e meia da manhã. A derrota de ontem foi com requintes de crueldade mas esteve longe de um Maracanazo.