Há quatro dias escrevi que só o Rock and Roll salva. Não precisei mais que 20 segundos para comprovar isso. Os primeiros acordes de "Hard to Explain" mostraram que o tão misterioso Nirvana é bem simples de se encontrar.
Quando "Is this it" saiu em 2001, eu estava na Suécia. No CdPlayer estavam "Afrociberdelia", "Bloco do Eu sozinho", "Nervermind". Ao passar em uma loja de Estocolmo um poster anunciava o CD. Foram 15 coroas muito bem gasta. Durante quase dois meses, a bolachinha não saia do carro ou do som do quarto.
Os primeiros acordes de Is this it me acordavam todo dia. Aquele ruidinho, antes das primeiras notas. O banho da manhã era marcado por "The Modern Age", "Soma", "Barely Legal" e ‘Someday", o resto do disco era ouvido do caminho da casa para o trabalho, nos congestionamentos do Túnel Rebouças.
"Last Night" foi um hino nas noites de porres e festa na Matriz. Berrada toda vez, acompanha por air guitar em seus riffs e solinhos. Solinhos que seduzem, notas econômicas, simples, secas, recheadas por barulinhos e um diálogos de notas deliciosas.
Nesta sexta, os primeiros acordes de "Hard to Explain" marcaram o início da catarse coletiva de quatro mil pessoas. Uma sequência arrebatadora. Música atrás de música, hit atrás de hit. Todos berrados, cantados, declamados, pulados, beijados. Todos absorvidos e sorvidos com a deliciosa sensação que um dos melhores shows da minha vida estava acontecendo. O clima ideal, a música ideal, as companhias ideais, o beijos ideal. Tudo estava perfeito.
Oitenta minutos depois, quando finalmente "Last Night" começou os Strokes já estavam entregues. Julian já estava apaixonado pela platéia que o ajudou com os versos esquecidos. "Vocês são barulhentos!" parecia uma declaração de amor. "Last Night" foi a penúltima música do show. Três minutos de delírio. A primeira vez ao vivo, alí, a 20 metros de distância. Gritos, berros, barulhos, solos de air guitar, com cada nota acompanhada pela boca. Som elétricos saindo de forma acústica, pelas cordas vocais, cansadas com mais de uma hora e vinte minutos de exigência absoluta.
O que poderia vir depois? Seria o fio perfeito, mas não foi. "Take or Leave It " foi ainda mais berrada. Fim de show. Suor, cansaço e um sorriso estampado no rosto a espera do bis. Mais três músicas, entre elas NYC Cops. Fim? Não, enquanto corpos tentavam se recuperar com as luzes acessas e incrédulos caminhavam para a saída, uma inesperada volta, e os 20 metros foram reduzidos para 5. E mais um bis. Quatro minutos depois realmente o fim e os ‘irmãos" de Fabrício Moretti saíram do MAM do Rio com a deliciosa sensação de Boa Noite.
Mas o Rock and Roll tem suas surpresa. O gosto de ressaca de sexta ainda estava na boca quando entrei no palco Lab para ver Arcade Fire e Wilco. 50 minutos depois dos primeiros acordes de "Wake Up" a deliciosa sensação de quem gosta de música. Puta que pariu QUE SHOW!
As músicas do Arcade que baixei chamaram pouca atenção a estes ouvidos desatentos. Mas ao primeiros dois minutos de "Wake Up" e a performance da banda no palco seduziram de imediato. Os gritos e a marcação marcial dos primeiros acordes, substituídas por uma levada 80 apimentada pela voz de Win Butler, que lembra muito David Byrne.
Foram 50 minutos de surpresas, muito pela performance de seus componentes. O destaque fica com o ruivo Richard Perry, que começou no tambor, passou pela guitarra, pelo teclado, no vocal e até batucando o chão e com Jeremy Gara o maior show man do Tim Festival. Quando os canadenses saíram do palco a sensação de estar vivo esta presente mais uma vez. Esta é a mágica do Rock. Está é a energia que me move em achar novos sons, novas formas de fazer este velho ritmo a essência da descoberta. Que se pode dar em uma banda de fanfarra de colegas de escola do Canadá, em um bando de garotos que ganharam uma guitarra no norte da Islândia, ou em moleques que vivam entediados com a vida em NY.