Sinais de Fumaça
   Deliciosos shows

Mumford pagou a pau

O Lolla é disparado o melhor festival do país. Estrutura funciona, muita opção de comida, banheiros e bares, gente vendendo no meio do público o tempo todo, bons shows, quase nunca com problemas de superlotação e com uma distribuição de palco que permite você assistir vários shows perto e longe, mas sempre com uma boa visão, além de um som descente.

Minha opção desse ano – depois da conjuntivite dupla me deixar fora da ediçõ passada – foi pelo sábado, principalmente pelo Mumford and Sons. Acabei perdendo o Eagle of Death Metal, mas cheguei a tempo de ver o Bad Religion. Os velhinhos ainda têm vontade de palco e nada como um bom som rápido e simples para a animar a vida.

Depois rumei para ver o Of Monsters and Men. Tem gente que adora, mas confesso que não me pega. Nann Bryndís Hilmardóttir é uma graça, mas o fim de tarde foi meio estranho. Uma amiga que já assistiu o Of Monsters and Men 4 vezes disse que os caras são matadores em palcos menores. Bom, acho que vale dar uma chance à banda e esperar um show mais intimista da próxima vez.

Parada para a comida e Tame Impala. Camadas e camadas de psicodelia australiana. Bom show, correto, mas não consegui mergulhar nessas camadas de som e me perdi entre as frequências. Bom, deixei o Tame Impala antes do fim e rumei para ver de um bom lugar o Mumford and Sons. Valeu a noite, o festival, o dinheiro investido...

Os caras demoraram para chegar ao Brasil, mas a recepção foi quente, alta e bem animada. O som não tem nada de moderno, inovador, mas o folk desses britânicos tomou as “colinas” de Interlagos e a comunhão banda-plateia foi sensacional. Marcus Mumford parecia genuinamente surpreso com o público que cantou alto muitas vezes e fez a banda sorrir. Um show para guardar. O frio da noite paulistana foi embora na energia de uma multidão feliz e uma banda redonda, com tesão de palco e entregue.

Sai de Interlagos cansado e com um sorriso no rosto que só boas noites de boa música ao vivo podem provocar.

Alabama no Circo          

E esse sorriso voltou ontem no Circo Voador. Como em 2013, sai do Lolla para o Circo encontrar Brittany Howard e seu Alabama Shakes. Os anos deixaram Brittany mais segura no palco e a banda bem mais madura e isso não mexeu na beleza do som.

Pena que o Circo estava acima da capacidade e não foi fácil conseguir um lugar para vez a entrega de Brittany.  Essa entrega continua emocionando.

Sound & Colour é um disco delicioso e a mescla desse repertório com o de Boys & Girls funciona muito bem. Ontem, foram 20 músicas deliciosas, 20 hinos celebrados e cultuados por uma plateia dominada – tão dominada, que o tradicional bate-papo que existe nos shows do Rio, foi calado por um Circo a fim de ouvir Brittany e se emocionar.

Há 3 anos escrevi que “A música tem o poder de te transportar e te transformar’. E ontem mais uma vez fez isso. Nem o desconforto foi capaz de tirar a sintonia da plateia com a banda. No domínio de sua Gibson ou apenas acompanhada do microfone, Brittany foi seguida, cultuada e ovacionada. E ela respondeu com sorrisos, palavras tímidas, e uma voz que tomou todo o Circo. Não tenho dúvida, o melhor instrumento do Alabama Shakes é a voz de Brittany Howard. Mais uma vez, fui transportado aos bares americanos, às igrejas gospel, ao fundo de uma garagem onde uma moça resolveu mostrar suas músicas e revelar sua alma para os amigos.

Essa garagem, ontem, foi a Lapa. E no meio da boêmia carioca, essa menina e sua banda, mais uma vez destruíram tudo em cada acorde e essa dedicação, esse culto com gosto de Athens, Alabama, ecoou em cada um dos presentes, transformando quem se deu o direito de ouvir e contemplar. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 11h38
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   As pedras rolam

Em alguns momentos tudo foi perfeito. Como em “Gimme Shelter”, com Mick te levando por aquele labirinto “Rape, muder! It’s just a shot away”. Ou quando ele te convence que “you can’t always get what you want”. Nesses pequenos encontros mágicos, quando aquela parede de som penetra pelo seu corpo e provoca sentimentos escondidos, o mais honesto dos sorrisos e lágrimas, tudo parece tão simples, tão honesto e fluido, que não existe outro lugar para se estar.

Está certo, que esses pequenos momentos fluidos são cercados por algumas das melhores canções que a nossa raça produziu. Do primeiro acorde de “Start me up” até o último feedback do riff de “(I can’t get no) Satisfaction”, são duas horas de um espetáculo beirando a perfeição. Seja na cenografia de “Sympathy for the Devil”, no labirinto de idas e vindas de “Midnight Rambler”, na levada mais lenta de “Paint it Black”, ou no balanço dos dados de “Tumbling Dice”.

Nesse terceiro encontro, a mesma emoção de 1995, ou 1998. Se o botox mascara o tempo de forma artificial, a química entre Keith e Ron só pode chegar a essa precisão graças aos 40 anos passados, com todas suas rugas e cicatrizes. Se Charlie já não tem a mesma força aos 74 anos, basta alguns golpes precisos no pequeno set que o acompanha há 53 anos, perceber que “Jumping Jack Flash”, “Brown Sugar” ou “Honky Tonk Women”, continuam batendo pesado, apesar dos quase 50 anos.

Pode ser extremamente profissional, mas é feito para emocionar e emociona e principalmente é eito para divertir, afinal, no fim, “It’s only rock in roll” e isso é o que existe de melhor. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 14h09
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   Urbana Legio omnia vincit

Estranhos pensamentos percorreram minha cabeça na última terça-feira. Apesar da chuva forte sobre o Rio e do trânsito entra a Barra e Botafogo (com milhares de alertas no Waze), resolvi topar encarar a volta da Legião Urbana em um show para ouvintes da Rádio Cidade. Não estava seguro se tinha tomada a decisão correta.

Tenho na memória os cinco shows que vi dos caras entre o “Dois’ e o “Descobrimento do Brasil”. Desde a primeira vez, a presença de Renato Russo sempre foi impressionante. Ele era a grande força da teia sonora. Não tinha como tirar os olhos dele. Desde o moleque de 1986 até o profeta escolhido de 1994.

Grande parte da minha memória afetiva musical está nessa relação – basta ver os textos nesse blog. Manchar essa memória era quase certo. Mas o tempo apaga coisas ruins - as horas de fila, o tempo em pé, as idas e voltas em ônibus lotados, os empurra-empurras – e deixa bem mais belo do que foi. O passado bem guardado é insuperável. Mesmo desbotado, ainda guarda o cheiro do frescor.

E nesse passado já meio desbotado, nesses anos de shows da Legião, vi a plateia mudar, a banda mudar, o som mudar – pouco, é verdade – e a força de Renato explodir. A voz de uma geração, o Messias. Renato não era santo nem demônio. Era humano e afogava seus demônios em tudo que podia. E no meio de um exorcismo abusivo, fazia música simples e bela – as vezes belamente boba ou bobamente linda. Só que o lado messiânico projetado pela plateia era insuportável. Conversar com alguém sobre Legião era presenciar a cegueira de um devoto ao Deus. Em 1994, confesso que para mim não tinha mais paciência para o culto. Deus estava morto.

Mesmo com todos os medos, fui ver a reunião de Dado e Bonfá e fiquei feliz. Na terça, me emocionei, cantei junto, fiquei feliz de estar ali, vendo a música que me fez ser quem eu sou mais uma vez sendo executada no palco com paixão. Me surpreendi em lembrar de todas as músicas do primeiro disco – executado na ordem que foi gravado.

É a Legião? É infinitamente muito menos ridículo que todos os tributos feitos em nome de um Renato morto, mas a verdade é que Renato está morto e com ele também morreu a Legião. Adorei a verdade contida e a emoção do André Frateschi nos vocais. Vendo a performance sincera entre os furos – não sei se tão honesto ou propositalmente produzidos - da velha blusa dos Stones, pensei que por mais que que não fosse Legião era Legião. E não só pelos dois membros fundadores que estavam no palco, mas pelo olhar encanto do André enquanto dialogava com a minha memória e cantava os versos que me transportavam para um lugar não necessariamente melhor, mas que naquele momento era onde queria estar.

E era a Legião também a impaciência genuína de Bonfá ao responder sobre o interminável futuro do pretérito. Foda-se o seria. Não tem seria, têm o foi e tem o é - o agora, o aqui, o já. Estamos vivos! Podemos até reverenciar os mortos, nos emocionar com as memórias provocadas nas nossas sinapses, mas eles não retornam e seguir adiante é necessário. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 21h19
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   Bowie e eu

Tenho muitos momentos com David Bowie. A maioria deles, no meio de uma pista, já com muitas cervejas na cabeça, mas hoje, sob o impacto da notícia da morte do Camaleão, dois momentos percorrem as minhas memórias.

A primeira em 1990, quando fui ao show de Bowie no antigo Palestra Itália. Ainda não amava Bowie, fui mais pela farra e pela oportunidade de um show internacional que por paixão a Bowie. Já gostava muito de “Space Oddity”, conhecia mais umas 3 ou 4 músicas mas não era um fã. Meus amigos não ouviam Bowie. Ele era algo muito longe do punk-heavy que tomava grande parte da minha discoteca.

Para minha sorte, aquele foi o show da turnê “Sound and Vision”, quase um besto f de Bowie, que estava se despedindo de mais uma fase. Foi depois desse show, do impacto de ver Bowie cantando e dominando o palco como poucos que corri atrás da obra de Bowie e fui conhecer suas várias camadas. Corri atrás e quanto mais conheci, mais me apaixonava.

Anos depois, em 1997, estava no Shereton fazendo um encontro de colaboradores da Esso. Eu e fotógrafo estávamos no corredor, jogando conversa fora, quando o elevador abriu e de dentro surgiu Bowie.

Olhamos petrificados para aquele sujeito de no máximo 1,65m e não sabíamos o que fazer. Precisávamos voltar ao encontro, mas a coletiva de Bowie era na sala do lado. Sem combinar nada, nem pensamos, fomos para a coletiva e ficamos uma hora saboreando do mesmo ambiente de Bowie. Não estive naquele show – o orçamento estava bem apertado naquela época – mas aquela tarde no Sheraton valeu.

Depois disso, coloquei muito Bowie para dançar. Para alegria de alguns amigos, ódio de outros. Hoje, já que não posso nadar como os golfinhos, vou me despedir de Bowie dançando sozinho em casa e pensando que:  we can be Heroes, just for one day.



Escrito por Sinais de Fumaça às 16h58
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   Um lugar pode transformar um show.

Todos os amigos que gostam de música e foram ver Gil e Caetano na sua nova turnê disseram que o show era fraco, um caça-níquel, um show preguiçoso. Mesmo com as críticas, resolvi apostar no encontro dos dois no Circo Voador. Afinal, poderia ser épico.

Não foi, mas foi muito bom. O tamanho da casa – lotada – e o clima da plateia – sem mesinhas – ajudaram na transformação. No sagrado palco do Circo, os dois estavam mais soltos, quase tocando violão em casa para os amigos. Um de frente para o outro, trocando olhares, sorrisos, harmonias, confidências, segredos e desejos.

E do cantinho do Circo, acompanhei Caetano encantando a plateia, encantado com Gil encantado com a plateia encantada com a linda voz de Caetano conduzida com delicadeza pelo violão de Gil, que fez Caetano dançar, a galera delirar e esse velho se arrepiar.

Lá do cantinho, me deixei levar pelos senhores de cabelos branco e carisma impressionante. Dancei – abraçado, juntinho, romântico ou no melhor clima de micareta – com um set list de deliciosas canções de 50 anos.

Me arrepiei com a força suave de “Terra”, “Sampa”, “Super-homem” e “Desde que o Samba é Samba’. Dancei como no carnaval baiano com “Nossa Gente (avisa lá)”, “Filhos de Ghandi” e “Toda menina baiana” - só foi difícil de aguentar “Tieta”. Fora isso, a festa foi deliciosa. Caetano e “Nine out of ten”, Gil e “Expresso 2222” e um “Domingo no Parque” só no violão – melhor do show.

E lá do cantinho, enquanto o som tomava minha mente e o sorriso tomava meu rosto, também acompanhei coisas engraçadas, como a briga entre duas pessoas na minha frente para saber se sexta-feira é dia de Oxalá ou Iansã. Ou uma maluca traduzindo “Leãozinho” para um gringo, a galera berra o nome de Eduardo Cunha enquanto Caetano cantava “Odeio Você” e todo mundo saindo sorrindo e feliz, depois de “Aquele Abraço”.

 



Escrito por Sinais de Fumaça às 12h27
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   Tesão de palco

 

Como explicar um set list de 34 músicas por show? Como explicar espetáculos de mais de 3 horas por dia? Fácil, o Pearl Jam tem tesão de palco!

Dá para ver isso no sorriso da banda durante todo o show, na energia que explode no palco e contagia o estádio, na preocupação com a galera nas interações em português de Eddie Vedder e na genuína vontade de tocar e se divertir.

Essa vontade se comprova no set list. O Pearl Jam não é uma banda que sai de casa com 20 músicas fechadas e pronto. Se você viu um show da turnê, provavelmente vai se deparar com um set list bem diferente nos shows seguintes. Nesse giro pela Améria Latina, a banda já fez 7 shows e tocou nada menos que 104 músicas. Dessas 104, 9 estiveram em todos concertos – “Even Flow”, “Sirens”, “Rearviewmirror”, “Porch”, “Mind your Manners”, “Alive”, “Give to Fly”, “Do the Evolution” e “Cordoroy”.

Quer dizer, você pode ir a um show do Pearl Jam e não ouvir músicas como “Black”, “Jeremy”. “Elderly woman behind the counter in a small town”, ou “Better man”. Felizmente todas estavam no set list desse domingo no Maracanã, que ainda teve “Oceans” estreando na turnê. O show ainda trouxe homenagens ao Eagle of the Metal com a cover de “I want you so hard e a um amigo da banda que perdeu a esposa nos atentados de Paris – uma bela “imagine” com todos os celulares do Maracanã iluminando a bela note carioca. As vítimas de Paris também estavam representadas no bumbo da bateria de Matta Cameron.

Além de um set list sensacional, o Pearl Jam tem Eddie Vedder e esse cara é um dos melhores bandleaders do planeta. Não tem como você não ficar hipnotizado pelo cara, que ainda domina o palco com fôlego de garoto e um sorriso no rosto de quem está lá porque ama o que está fazendo. Foram 3 horas de entrega. De “Oceans” a “Yellow Ledbetter”, passando por “Rockin’ in a free world”, primeiros versos de “Porch” muito bem executados por um emocionado fã, ou a linda “Just Breathe” – que fez escorrer algumas lágrimas desse velho.

Não tem como não sair emocionado de um show desses caras. Emocionado, feliz e cansado, porque parece que só eu envelheço nesses anos vendo a banda. Mas vale a pena cada dorzinha do dia seguinte. Shows viscerais como esse fazem tudo valer a pena. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 17h23
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   Noite fofa e com chilique

Em 2001, no último Free Jazz, dancei descalço ao som do Belle & Sebastian. Ouvia na época muito os 4 primeiros discos dos escoceses muito e lembro como foi deliciosa aquela noite.

Quatorze anos depois, quando os escoceses voltaram ao Brasil, aproveitei para me tornar um “carioca empolgado” – se isso é possível na minha personalidade – e comprei os ingressos para o show do Vivo Rio. Muita coisa mudou nessa passagem de tempo, mas confesso que por muitas vezes tive vontade de voltar a dançar descalço.

Um bom resumo do show veio do amigo Loirão, depois que Stuart Murdoch deu um ataque por não conseguir cantar “Allie”. Teve chute no microfone, violão jogado e quebrado, choro e abandono do palco. Do alto de sua sabedoria, Loirão disse: “Esse vai dar uma de Ângela Ro-Ro. Depois do barraco, vai dar um show e terminara apoteótico”.

E, depois de pedir desculpa, lamentar a voz falhando e o violão quebrado e dizer que iria tomar uma bronca da esposa, Stuart se recompôs no salto e comandou a banda para um show delicado e contagiante que acabou com o palco invadido e o público cantando e dançando junto.

No meio disso tudo, ainda teve Sarah Martin ovacionada depois de “The power of three”, "Seeing other People" e o Belle encantando com belas projeções para acompanhar deliciosas canções como "I'm a Cuckoo", "Get me away from here I'm dying", "Stars of Track and Field", "The blues are still blue",  "The State that I am in", "Get me away from here I'm dying" e "The Boy with the Arab Strap" com a supreeendente participação de uma fãs dividindo o vocal com Stuart e mandando muito bem.

Para fechar, pedido da plateia - "Get me Away from Here, I'm Dying" – e "The Blues Are Still Blue".



Escrito por Sinais de Fumaça às 12h50
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   Banda do Mar

Eu consigo entender a idolatria à Marcelo Camelo, mas confesso que tenho um problema geracional para a idolatria à Malu Magalhães. Esse problema me deixa um pouco desconectado com a Banda do Mar.

No disco, até não me incomoda tanto a voz da Malu - tirando a interpretação de “Mia’, qe é sofrível -, mas no palco a voz dela me faz sofrer – dicção quase tão ruim quanto a minha – e mulher sem charme no palco, eu fico com a minha musa Fernanda Takai, a mais bela mulher sem sal do planeta.

No sábado no Circo, me deparei com os aficionados dessas duas pessoas prontas para o culto. Não sou contra aficionados, também tenho minhas religiões e gosto de me sentir incluso nos shows do Iron cantando até os solos das músicas, mas sábado não estava num clima complacente e isso tornou a experiência um pouco torturante. Um aceno, um gesto, um afago do casal era comemorado como gol do campeonato. Estou ficando velho e isso me cansa, quase tanto quanto a falta de coerência no agradecimento para a galera dado pala Malu. Mas preciso parar de pensar como um velho e achar que a molecada que estava lá não sabia de nada. Deixa eles curtirem seu show, que nem foi tão ruim assim.

Deixando de lado a implicância e tentando mergulhar no som da Banda do Mar, o show teve seus momentos divertidos. Eles têm umas 4 músicas boas no repertório e Camelo usou bem os covers de sua ex banda – com direito a Anna Júlia – e de sua carreia solo para esquentar ainda mais o clima no Circo. Ainda gosto muito da voz do Camelo e acho que ele escreve música como poucos. Confesso ser quase ignorante no repertório da Malu, mas as meninas ao meu lado com certeza saíram do Circo festejando o show da vida. Pelo sorriso do público no fim do show, só eu estava de ressaca nesse mar. Apenas achei divertido, quase no limite do pé no saco. A falta de álcool não ajudou, mas a patroa merecia o espumante no jantar e eu segurei a onda.

Tá ai, descobri porque estava tão fora de sintonia. Não dá para jantar bem, tomar espumante e ver um show feito para gente com 20 anos a menos que você. Estava tudo errado, a minha camiseta era preta e nela estava estampada “Love Will tear us apart”. Estava tudo muito fechado para o clima da noite, não era noite para Joy Division. Da próxima vou de cerveja, podrão e uma camisa mais para rosa com uma foto do Rio retrô propositalmente desbotada, pronto para ver o sol se pôr no Arpoador.



Escrito por Sinais de Fumaça às 18h25
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   Jogando com a platéia

Dave Grohl sabe todos os segredos de ser um super star e sabe usar com maestria. Quem vê um show do Foo Fighters pela primeira vez se sente o cara mais importante do mundo. Mesmo aquele cara que sentado na última cadeira do Maracanã se sentiu especial nessa noite quente de domingo. Ele com certeza acreditou que Dave Grohl tocou para ele e se importou com ele.

Sempre sorrindo, Dave leva o show de mais de 2 horas e meia como se estivesse tocando pela última vez. Conversa com a plateia, acelera e desacelera as músicas, abre espaço para os fãs cantarem, pula, corre, está em todos os pontos do palco, fora dele e passa a imagem que está ali se divertindo. Todos os truques estão ali, expostos. Dono da cena, David comanda como um grande artista, mas a dúvida fica: Até que ponto é genuíno?

Vendo as milhares de participações que David Grohl faz por ai e assistindo o documentário “Sound City”, me parece que o cara está ali para se divertir e como um bom artista, usa de sua técnica para proporcionar um grande espetáculo ao público sem ser apenas um burocrata.

O Foo Fighters tem uma fórmula em fazer música – calmaria e explosão dentro de uma embalagem. Você começa calmo, depois berra, depois desacelera mais uma vez e volta a explodir. Não tenho nada contra. AC/DC faz o mesmo blues/rock há 40 anos e é divertido e bom pra cacete. Pode não ser mais novidade, mas é bem feito, bem produzido e a aparentemente feito com tesão.

Nesse domingo, no Maracanã, todos saíram com sorriso no rosto, daqueles que nascem de um puta show. Teve uma banda tocando alto, rápido, dando aos seus fãs o que queriam e ainda se divertindo em um set list de bar com covers de Kiss, Queen e Rush. O show foi menor que em Porto Alegre e São Paulo – alguém pode me explicar o que aconteceu? – mas tenho certeza que não menos intenso.

Ficou longe de ser o show da minha vida. Mas acho que ser velho e ter visto a banda já 3 vezes pesa no meu julgamento. Tenho certeza que para a maioria dos moleques de 20 foi do cacete. Para mim, foi legal – bem longe de ser burocrático. Dancei, gritei e sai do Maracanã feliz. A festa foi divertida, o baile foi bom e para uma noite quente de domingo, nada melhor que uma banda tocando alto e queimando neurônios e tímpanos. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 18h07
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   Paul, mais uma vez

Mais uma vez o sr. McCartney nos brindou com quase 3 horas de espetáculo. No set list, as que não desaparecem da turnê: Carry That Weight, Eleanor Rigby, Blackbird, Nineteen Hundred and Eighty-Five, Back in the U.S.S.R, The Long and Winding Road, Let It Be, Lady Madonna, Hey Jude, We Can Work It Out, Let Me Roll It, Golden Slumbers, Band on the Run e The End, além de outras 25 do repertório de Paul – entre Wings, carreira solo e Beatles. Tá bom? Só isso já é melhor que quase todos os shows apresentados no país esse ano.

Esse senhor de 72 anos não precisava estar em turnê pelo mundo 8 a 9 meses por ano. Paul não precisava se arriscar em um disco nova a cada um ou dois anos. Ele poderia fazer poucas apresentações e curti a vida. Só que Paul curte a vida no palco. Ele se alimenta dessa troca de energia. Desde os tempos de Cavern, dos puteiros de Hamburgo, desde quando entrou na banda de John Lennon, Paul vive dessa troca. Foi ele quem mais tentou uma volta dos Beatles aos shows, quando a banda largou tudo para mergulhar apenas nas gravações. Vendo isso com a distância de quase 40 anos e vendo Paul sobre um palco aos 72 anos, dá para imaginar como deveria ser doloroso para ele não estar em contato direto com a plateia, enquanto produzia hit atrás de hit.

O palco faz Paul vivo e isso nos faz sentir especiais. Presenciar o velho Macca tocar 3 horas com essa dedicação, nos faz sorrir de alegra e saber que cada centavo empregado no ingresso valei a pena. Essa necessidade de palco faz Paul ser sinceramente simpático em todas as suas presepadas. O que você vai encontrar em um show sr. McCartney é a melhor música produzida no século XX, carisma, energia e principalmente respeito.

Ontem, no HSBC, fui as lágrimas mais uma vez – dessa vez bem de perto, na terceira fila – vendo aquele senhor desfilar clássico atrás de clássico. Em um ginásio, e não em um estádio, o clima de intimidade aumenta e nós ganhamos com isso, vendo Paul de perto, suando, sorrindo, vivendo e se divertindo com uma plateia ganha antes mesmo de Eigth days a week começar. Três horas de festa, celebração, comunhão. Três horas de gerações unias, cantando junto cada verso. Ontem, mais uma vez sai do show com um sorriso de criança, completamente apaixonado por Paul. Espero que ele consiga levar essa vida mais uns 6 ou 7 anos, para que a minha pequena Teresa tenha a oportunidade de ver o velho Macca no palco, junto do seu pai. Só mais 6 anos, será que dá sr. McCartney?



Escrito por Sinais de Fumaça às 15h25
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   Por que tanto ódio?

Saber que sua opinião existe, mas não é apenas ela que existe está cada dia menos claro para as pessoas. Fazer valer sua opinião pela força e a agressividade parece a regra hoje, principalmente nas “redes sociais”, onde o embate se dá sem o olho no olho e podemos deixar nossa civilidade de lado, protegidos pelos caminhos digitais.

Não vou ser hipócrita. Muitas vezes tive vontade de xingar a pessoa que pensava diferente, só porque não tinha um bom argumento para rebater, mas precisamos conter nossa verborragia digital e tentar buscar algo menos raso que a agressão aos que pensam diferente. Pensou diferente, merece porrada e até a morte.

Debater é complicado. Conseguir argumentos para apresentar em uma conversa com pessoas de opinião contrária dá trabalho. Hoje, pensar diferente de uma pessoa é colocar você do lado oposto, do lado do inimigo. Vivemos cada vez mais em uma sociedade binária, onde o que vale é apenas o 0 ou 1, onde a reflexão parece cada dia mais distante.

E nesse contexto radical, cada vez mais o “inimigo” deve ser aniquilado, não importa as armas e nem os meios. E onde melhor para aniquilar o inimigo que no facebook? Essa semana, fui apresentado à página Cesária Humanizada, que se define como: “Parto Cesárea, um parto com respeito e acima de tudo, com amor e dignidade”. Comecei a ler alguns posts do site e, quando cheguei aos comentários, fiquei com medo. O tom de agressividade dos dois lados da conversa é terrível. Tanto de alguns posts que chamam as pessoas que pregam o parto humanizado de #xanarasgada, quanto dos comentários de quem discorda com a escolha de uma cesariana que chega a pedir a mutilação dessas mulheres. Tudo isso, numa página que discute a maternidade. Numa página que se apresenta como: “Esta página é CONTRA a qualquer tipo de radicalismo!”, só que o nível do debate é assustador, com agressão dos dois lados. Em um lugar onde o debate poderia se travar com informações válidas para os dois lados, o que reina é o ódio.

Pensem como poderia ser diferente e melhor. As defensoras da cesariana poderiam usar esse espaço de uma forma melhor, com muito mais informação e sem memes exaltando suas opiniões e agredindo suas opositoras. As defensoras do parto humanizado, poderiam rebater também sem xingamentos, ameaças e com dados e opiniões avalizadas. Se os dois grupos usassem esse espaço não como um ringue, mas como um espaço democrático de debate, seus leitores – pró e contra – teriam condições de escolher de maneira mais educada e civilizada.

Uso o exemplo dessa página por se tratar de um ato que deveria gerar apenas amor – isso não é discurso de velho hippie -, estamos falando da maternidade e da escolha do part. Mas essa é realidade de quase todo debate na rede. Minorias, maiorias, cotas, gosto musical, cinema, futebol, cor dos olhos, política, hemorroida, tudo é razão para agredir quem está do outro lado.

Fica aqui o convite para acabar com esse clima de guerra nas redes: não faça quem pensa diferente de você um inimigo. Use o seu poder de argumentação e debate. Não menospreze quem não pensa como você, a graça do mundo é essa. Se for entrar em um debate, contra-argumente com razão e inteligência. Tente excluir as agressões e os palavrões dos posts e comentários e tente dar um google sempre que faltar argumento. Isso ajudará você a encontrar dados para fortalecer sua opinião. Pense! Isso dá trabalho, mas te fará crescer.



Escrito por Sinais de Fumaça às 16h37
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   Em nome da Fé!

Ontem, o Canal Brasil anunciou o novo programa “Cinema em outras cores”, com apresentação do deputado federal Jean Willys. Até agora, esse post tem mais de 1700 comentários e na sua grande maioria agressões baixas a opção sexual do deputado.

Tem também quem ataque Jean Willys politicamente. Mas essa novela a gente está vendo nas redes sociais desde agosto e, sinceramente, está chata demais. O que constarei ontem é que estamos vivendo um tempo de pouco pensamento e muita agressão. Não pensa igual a mim, tem que tomar porrada, tem que ser morto, tem que ser massacrado. Temos que dividir, isolar, destruir, aniquilar. O debate se perdeu. Conversar com pessoas de pensamentos opostos pode ser extremamente benéfico para você. Isso pode te fazer crescer. Não é necessário aderir àquelas idéias, nem concordar com elas, mas se você pensar no que o outro está dizendo, te ajudará a construir argumentos melhores para defender seus pontos de vida e assim você poderá ver o mosaico de cores do mundo e não esse preto e branco pobre que estamos reverberando.

Só que enquanto não entendemos que idéias contrárias a nossa podem nos beneficiar, continuamos destilando ódio em posts e mais post. Ódio contra homossexuais, crentes, ateus, eleitores da Dilma, do Aécio, nordestinos, paulistas, gaúchos, americanos, russos, chineses, marcianos...

O mais inacreditável é que no caso do Jean, a maiorias dessas agressões vem de gente que diz acreditar na Bíblia, em Deus, na Sagrada Família, etc. Para deixar bem claro, estudei em um colégio católico, acredito em Deus e me lembro bem das palavras de Dom Paulo Evaristo Arns quando estava fazendo a primeira comunhão, afirmando que Jesus trouxe um novo mandamento: “Ame ao próximo como a si mesmo”.

Amar a próximo com a si é desejar ao próximo o amor que você deseja a você. É desejar ao próximo as graças conseguidas por você. Isso tudo através do amor, da compreensão, da partilha e da comunhão. Se a pessoa não acredita em que você acredita ela não deve ser exterminada, censurada e agredida. Ela deve ser entendida. Sinceramente, não consigo acreditar que pessoas que tem a religião como sua força de vida, possam agir de forma tão violenta, baixa, desleal e nociva. Lembro que matamos muitos em nome de um Deus – seja ele cristão, mulçumano, judeu, ou um elefante de 6 braços.

Não concordam com o que o deputado disse da Bíblia?  Não concordam com a opção pessoal do deputado? Argumentem com inteligência, sem destilar ódio. Não adianta nada desejar o amor de Cristo e depois sair por ai enchendo quem não pensa com você de porrada. Pensar, refletir, elaborar um argumento dá muito trabalho. Como diz meu pai desde que aprendi a falar e xingar: “Palavrão é a manifestação de quem não tem argumentos. É a última palavra do ignorante”. Por isso, fica aqui meu primeiro pedido. Antes do acesso de raiva - conte até 3 – se não tiver nada melhor para escrever que um palavrão ou um comentário pregando o ódio, não comente.

Outro problema, é delegar à televisão a obrigação de educação de nossos filhos e de nossas amadas famílias. Isso é coisa de preguiçoso. Educação passa bem longe disso. Educar dá trabalho. Educar mostrando que o mundo tem milhares de caminhos a serem seguidos, milhares de escolhas, milhares de opções é complicado demais. Ainda mais difícil é educar alguém para refletir, pensar, analisar e optar por suas escolhas respeitando os outros e sua liberdade individual. Hoje, queremos as coisas mais simples, mais imediatas, mais rasas e isso está nos levando a uma violência a intolerância cada vez maior. Hoje exaltamos pessoas que pregam a morte e o extermínio, mas somos radicalmente contra quem tem uma opção sexual fora da tradicional. Em um momento em que a tolerância é pregada até pelo líder mais alto dos Católicos, muitos que pregam em nome de um Deus – qualquer Deus – defendem cada vez mais, em nome da sua fé, a erradicação do diferente.

 

De todos os comentários que li na página do Canal Brasil, fico com o mais sábio: “Não quer ver, basta mudar de canal”. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 14h49
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   A banda da casa

O Franz Ferdinand já esteve no Brasil 7 vezes e não resta dúvida que é no Rio que a banda está em casa – isso, desde o mitológico show no Circo Voador. Alex Kapranos é o cara menos carioca do mundo, mas quando sobe em algum palco da cidade se transforma. O Franz pode não lotar estádio – ainda bem, já que posso ver os shows em lugares médios, sem perrengue, com uma vibração deliciosa e perto da banda – mas é uma banda que, desde sua primeira passagem pela cidade, demonstrou que sabe muito bem como comandar a plateia.

Ontem, no Vivo Rio, isso não foi diferente. É engraçado perceber que uma banda com 10 anos de carreira tem fãs de épocas diferentes. Dava para perceber quem conheceu esses escoceses no primeiro disco e quem descobriu mais tarde. A “velha” geração, vibrou muito com as 9 músicas de ‘Franz Ferdinand”, mas ficou mais parada nas 8 do “Right Thoughts, Right Words, Right Action”. Já a nova, saboreou o show inteiro com bem mais fôlego.

No palco, a competência e a simpatia dos outros shows de uma banda que sempre mostrou que não está cumprindo tabela. Além de detonar hit atrás de hit, os caras ainda interagiram muito com os cariocas. Um em especial teve o melhor dia de sua vida. Em “Tell her tonight”, Kapranos chamou Edu – um fã que pedia com um cartaz para tocar a música com a banda – para o palco. O cara mandou muito bem e saiu ovacionado pela galera e com aquele sorriso de quem ganhou a bicicleta do próprio Papai Noel.

Sem grandes recursos visuais, sem nenhuma firula e distração, praticamente emendando música atrás de música, a quase uma hora e cinquenta de festa terminou com a catarse de “This Fire”. Hora de deixar o Vivo rio suado e feliz, pronto para enfrentar uma sexta feira sonâmbula. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 15h11
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   A volta do Ira!

O clima era de Festa baile. Há muito tempo não ia a um show me sentindo um dos mais jovens da plateia. A geração que viveu os anos 80 em sua plenitude lotou o Circo Voador para o retorno do Ira! Todos de cabelos brancos – ou tingidos – jaquetas e camisetas pretas, prontos para saborear o retorno de Edgard Scandurra e Nasi aos palcos.

Meu primeiro show do Ira!, foi na Praça do Relógio, na USP, no lançamento de “Vivendo e Não Aprendendo”. Depois dessa estreia, foram vários outros, em vários palcos, em várias fases. Vi o lançamento do “Psico-Acustica’, shows lotados, show vazios, shows com a banda muito a fim de tocar, shows burocráticos, shows em São Paulo, em Caraguá, no Rio de Janeiro, em Osasco, em São Bernardo, um show em que o Nasi quase enfartou no palco. Vi as boas e má fases e não poderia deixar de estar no retorno do Ira!

Pelo que vi da nova “ABCD”, a banda vai ter que trabalhar muito para fazer algo bom em um possível próximo disco. Essa nova é constrangedora e foi, de longe, a pior do show. Ruim também estava o som do Circo, embolado, deixando a guitarra brigando com o violão e a bateria parecendo uma caixa de fósforo. Isso me incomodou muito.

Quando Edgard trocou de guitarra, o som deu uma melhorada e deu para aproveitar mais o prazer de viajar ao som de sua Fender. Na sua banda, tocando em casa, Edgard é mais Edgard e pode viajar pelas escalas e melodias que criou. É sempre sensacional ver o melhor guitarrista brasileiro tocar e improvisar. Só isso, vale a volta do Ira!

Só que a outra metade original da banda estava no centro do palco. Os anos cobraram a forma física e a voz de Nasi, mas quem nasce para frontaman sabe todos os atalhos. Se a voz já não atinge os tons mais altos, sorrisos. Se não é possível mais pular ou se arrastar pelo palco, o velho pandeiro serve de aliado. Quando o tom baixa, o grave entra em cena, e Nasi mata a pau.

Em duas horas de show, 26 músicas, que passearam por 10 discos – clássicos, algumas dispensáveis e belos e esquecidos lados Bs. Quando “Nas Ruas’ terminou, era visível a felicidade na plateia. Para que serve um retorno do Ira!? Para matar a saudade e rever Nasi e Edgard dividindo o palco em um delicioso set list. Não espere nada de novo, o Circo Voador viveu seu dia de Festa Baile e nós, velhinhos, dançamos como dançávamos há 30 anos, com o bom e velho rock & roll. 



Escrito por Sinais de Fumaça às 16h20
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   Ontem foi patético, 50 foi tragédia. Não tem comparação.

Muitos compararam a derrota de ontem para Alemanha com a derrota para o Uruguai em 1950. Não vivi 1950, mas acho que essa não é uma comparação válida.

Minha relação com 1950 nasceram das histórias que meu tio-bisavô Pepe contava nas tardes na casa da minha bisavó Maria. Lembro do tio Pepe descrevendo a viagem de carro até o Rio, o hotel que ele ficou hospedado, do clima da Cidade Maravilhosa – então uma cidade que não conhecia – do clima do estádio, da festa, dos gols do Uruguai, da decepção e do clima de luto que se abateu no estádio, na cidade, no país e da volta à São Paulo, numa longa procissão silenciosa, com janelas iluminadas por velas e um choro que percorria toda a estrada.

Essa história era contada mais de 30 anos depois de 16 de julho e, eu menino, sentado no chão da casa, com olhar fixo em meu tio, sentia o peso, o cheiro, o gosto daquela derrota, mesmo tendo nascido 22 anos depois. Naquele dia, éramos campeões mundiais até 34 do segundo tempo. Naquele dia, perdemos o mundial a 11 minutos do apito final. Tínhamos feito uma Copa quase perfeita, goleamos Espanha e Suécia, jogávamos pelo empate e o escrete branco era melhor e perdemos com um golpe final, quando a festa já estava acontecendo. 11 minutos separaram a glória da maior das nossas derrotas. Aquele 16 de julho marcou a Geração do tio Pepe e condenou Barbosa a uma pena perpétua.

Ontem, não jogamos a final, jogamos uma semifinal. Ontem, não tivemos o gosto do título em momento algum. Não dominamos o primeiro tempo. Não vivemos nosso sonho escorrer pelas mãos faltando 25 minutos para a partida acabar. Ontem, vimos a pior derrota da Seleção – em números – e fomos massacrados em apenas 6 minutos, mas o gosto da conquista nunca chegou a existir. Vimos um time melhor nos dominar desde sempre.

Ontem, nosso desejo de vencer uma Copa em casa não foi destruído no palco da final, a 11 minutos do fim. Nosso desejo foi destruído na maior pane que a Seleção sofreu em seus 100 anos de história, num jogo que não teve nenhum momento de drama. Em 50, a tragédia foi escrita pelos deuses. Ontem, o que se viu foi quase um pastelão. Um filme B de terror.

Quando for contar a história de 08 de julho de 2014 para meus filhos e netos, elas não terão as cores do drama que meu tio Pepe viveu em 1950. Acho que, por melhor que conte a história, ela não chegará nem perto do que meu tio Pepe viveu. Ela não terá o mesmo peso, o mesmo cheiro, o meSalvar e Publicarsmo gosto daquela derrota Não tem como pintar com as mesmas tintas essas duas derrotas. O que aconteceu ontem, beirou o patético. A perda de 50 é incomparável.



Escrito por Sinais de Fumaça às 15h32
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