Esse é um texto passional. Há 25 anos, eu era um moleque no Projeto SP, num domingo, ouvindo “Cabeça Dinossauro” pela primeira vez. Titãs não era minha banda preferida, mas o impacto daquele som mudou algumas coisas na minha vida. Cantar “Polícia”, “Igreja”, “Porrada”, “Bichos Escrotos” com 14 anos dá uma sensação de liberdade e ruptura enorme. Pode gritar: “Vão se fuder!” era, e ainda é, bom demais. Quando os Titãs resolveram tocar o Cabeça de novo, na ordem, inteiro, não tinha como não estar lá. Confesso que estava um pouco com medo. Será que veria um pastiche daquele show que marcou minha adolescência? Logo nos primeiros segundos de Cabeça vi que não. Pode passar os anos, mas a obra deles resiste. As primeiras linhas de baixo, as primeiras pancadas da bateria, trouxeram a memória emotiva a tona. Um caminhão bateu de frente no peito e só restou berrar. Cabeça Dinossauro é o disco mais importante dos anos 80 produzido no país. Ele tinha a raiva e peso de um bom disco punk e mesmo assim é tem um DNA pop. Ele redefiniu muita coisa e mostrou que eras possível fazer a junção desses 2 mundos, com talento e, principalmente, em português. No Circo, na sexta, uma sequência de clássicos voltou à vida, com uma banda a fim de tocar, com uma energia de palco contagiante. Até a fraca “Dividas” foi recebida de coração aberto. Nada como berrar: “Polícia para quem precisa”, “Porrada nos caras que não fazem nada”, e ouvir “A Face do Destruidor” pela primeira vez (que eu me lembre. Se há 25 eles tocaram, esse registro não ficou na memória). Quando “O Que” terminou, a sensação no Circo era de pura felicidade. O mais legal de tudo é que a banda estava crua e echeia de testosterona. Teve defeitos, erro na execução, mas isso não era importante. A energia que estava naquela tenta, no meio da Lapa era sensacional. Depois, veio a segunda parte do show. Não resisti e fui pro meio da roda lembrar que um dia tive 15 anos. Os Titãs tem clássicos suficientes para manter o nível do Cabeça por mais uma hora, o problema é que as músicas novas são mais fracas, não tem uma áurea clássica, e dá uma caída em alguns momentos. Mas aí já não era importante. Suor, cerveja, roda e distorção fazem a noite perfeita. Agora é torcer para que no próximo ano, a banda se anime coma idéia de tocar o também clássico “Jesus”. Fica aqui a idéia. Garanto que sairia da Lapa tão do mesmo jeito. Morto, suado e feliz.
O rock é simples. Você consegue fazer coisa belíssimas com 3 acordes. Você consegue fazer uma tola balada de amor a coisa mais bonita do mundo. Você pode até rechear sua música de camadas de sons e ruídos, mas no fundo, o que vale é a alma e Noel Gallangher sabe muito bem disso.
O cara entrou para a banda do irmão e transformou uns caras obscuros de Manchester no Oasis, a banda britânica mais importante dos anos 90. Quando romperam, Liam montou o Beady Eye e ignorou a obra da banda (vi os caras no Planeta Terra em outubro, mas ver Liam abrindo para alguém é sempre doloroso, já que ele toca de saco cheio, quem foi ao show do Circo disse que foi bem melhor). Noel esperou e saiu com "Noel Gallagher's High Flying Birds”, um dos melhores disco de 2011, misturando tudo o que ele sabe fazer de melhor, belas canções deliciosas para cantar.
Quando saiu em turnê, Noel não deixou a história do Oasis de lado. Ontem, no Vivo Rio, ele tocou 8 do passado e 9 do disco novo em 1h30 horas de show. Uma mistura que passa quase desapercebida, já que as músicas de “Noel Gallagher's High Flying Birds” tem o melhor do DNA Gallangher.
Como frontman, Noel continua com a marra de sempre. Agora no centro do palco todo o tempo, ele comandou uma banda competente quase sem transparecer sentimentos, mas não escondeu o sorriso quando a galera entoou cantos com seu nome, ou cantou as músicas do Oasis que não estavam no set list (claro que ele não incluiu nada de diferente, mesmo com o belo coro).
No show, aberto com duas da velha banda - "(It's Good) To Be Free" e "Mucky Fingers" - Noel foi despejando música atrás de música, com intervalos só para trocar de guitarra ou pegar o violão. Destaque para a bela versão acústica de “Supersonic”, para as novas “Dream On", "(I Wanna Live in a Dream in My) Record Machine" e "AKA... Broken Arrow" e para coisas bobas e belas como "Half The World Away". A galera cantou todas, mesmo as mais obscuras.
No bis, "Let the Lord Shine a Light on Me", "Whatever", "Little By Little" e "Don't Look Back In Anger". Tem como um show que termina com uma das melhores canções do planeta ser ruim?
Nem a pau!
Set List
"(It's Good) To Be Free" "Mucky Fingers" "Everybody's on the Run" "Dream On" "If I Had a Gun" "The Good Rebel" "The Death of You and Me" "Freaky Teeth" "Supersonic" "(I Wanna Live in a Dream in My) Record Machine" "AKA... What a Life!" "Talk Tonight" "Soldier Boys and Jesus Freaks" "AKA... Broken Arrow" "Half The World Away" "(Stranded On) The Wrong Beach"
Bis "Let the Lord Shine a Light on Me" "Whatever" "Little By Little" "Don't Look Back In Anger"
O que é a voz de Brittany Howard? Estou ouvindo “Boys and Girls” do Alabama Shakes e confesso que gostei. Pode lembrar Kings of Lion no começo, ela pode passear por Janis Joplin, das divas do soul, mas Brittany tem sua originalidade e sabe cantar muito bem. A voz de Brittany é a estrela desse disco.
Alabama Shakes é a banda bela banda de bar e, eu estou numa fase onde bandas de bar, têm me atraído. Não aquela coisa banquinho e violão, apenas 4 ou 5 caras, tocando para um bando de bêbados, tentando descobrir seu caminho e serem descobertos.
Dizem que essa banda formada em Athens, Alabama, é ainda melhor no palco, mas se você quiser ouvir um bom trabalho. “Hold On” abre o disco e dá vontade de tomar uma cerveja. “I found you”, mostra o lado soul de Brittany. E nesse conflito o disco segue, hora branco e caipira, hora negro e malicioso. Hora passeando de mãos dadas com Ottis, Hora brincando com Led Zeppelin, flertando com Carl Perkins, ou com a época de ouro da Mowtown e até lembrando Arctic Monkeys em alguns momentos.
Quer baixar umas músicas para experimentar? Busque a faixa título “Boys and Girls” onde Brittany pergunta com dor: “Oh why can't we be best friends anymore? They say a friend / Ain't to be Between a girl and a boy / I don't know who said it / Or why it got to be so wrong”. Quer se perder no meio do salão? Busque “hang Losse”. E se quiser levantar as mãos para o céu, se deixe levar por “You ain’t alone”. Vale a diversão.
Tem banda que você tem que ver cedo, no primeiro álbum, quando as coisas ainda têm um pouco de sujeira de garagem nas engrenagens. Quando fui a NY no ano passado, o Vaccines iria tocar. Comprei os ingressos, mas a garganta de Justin Young cancelou o show, Restou esperar o show do Rio.
Eu gosto de coisas como o Vaccines. Um som sem muita ambição, mas divertido. Não é melhor banda do planeta, mas é garantia de dedicação no palco e diversão regada à cerveja. Nada como um show de 55 minutos, 16 músicas, tocadas no melhor sistema 1,2,3,4, para relembrar que o simples é bom demais.
O Circo estava com 50% de sua capacidade para receber Vaccines. Não sei se foi a falta do Queremos, ou apenas porque os Vaccines fazem um som quase sem ruídinhos que tanto agrada os ouvidos mais modernos, ou apenas porque o rock não é música da cidade. O motivo não importa, em nada mudou a animação de banda e platéia.
Desde “Blow it” – até um pouco antes com Rock & Roll Radio, dos Ramones- até o fim do bis, com “Noogaard”, o Vaccines mostrou que 3 acordes, letras simples – as vezes mais que simples –, velocidade e empolgação fazem o show.
Pete Robertson, com a camisa da Seleção Brasileira, transpirva felicidade comandando a batera da banda. Já Justin Young comandou a festa, sem dar tempo de descanso. Elogiou o público carioca, a empolgação e o barulho. Show bom tem que ter barulho.
A resposta a dedicação no palco foi uma platéia entregue, realmente ruidosa, que pulou, tocou air guitar, se contorceu e dançou muito. As novas músicas foram ouvidas com atenção e agradaram. As outras 11 foram celebradas. Tudo rápido, pequenas explosões
Se há pouco tempo saí decepcionado com o Foster no Circo, ontem saí feliz demais, com um bom show de rock e com aquele sorriso bobo que a boa música
Inquieto. Esse é Jack White. O cara é uma das maiores mentes inventivas do planeta. Toca com todo mundo e faz música como poucos. Jack disponibilizou Blunderbuss e a rede tratou de espalhar.
Jack definiu o disco que ele mesmo produziu como suas expressões, cores e opiniões. E quais são as cores de Jack? Hoje, bem mais que o vermelho, preto e branco inicial dos White Stripes. O trabalho de Jack é uma concha de retalhos sensacional, com uma unidade que só ele consegue dar. Confesso que aprecio cada faceta desse cara.
Blunderbuss abre com um órgão para lá de invocado em Missing Pieces. É ele que domina e da corpo as guitarras. A levada tranquilona, as brincadeiras nas melodias, solinhos característicos - aqui sem muito espaço. Embora solo, som de banda afinada, redonda, com pegada de estrada. Som de banda.
Depois seja bem-vindo ao mundo White Strpies. Sixteen Saltine tem a guitarra cortando da melhor maneira WT. Faca afiada, de quem sabe dar peso ao pouco. Riffs da melhor qualidade. Pode começar a balançar a cabeça, Jack não vai deixar você parado.
Fim da porrada. A bateria começa na marcação de Freedom At 21. Guitarra entra num daqueles solos do Sr White. Vai ficando mais pesado o ar, mais denso, nuvens negras rodeam e de repente, a tempestade some e o ciclo recomeça. No auge do peso, nomeio da roda constante um solo porrada.
Hora de mudar. Não vai pensando que tudo é peso. Love Interruption é balada. Violões e Ruby Amanfu cantando com Jack. A cantora de Nashiville da um clima todo especial para essa musica. Para canatarolar sempre.”I want love to / Grab my fingers gently / Slam them in a doorway / Put my face into the ground.”
Blunderbuss da nome ao disco e vem na mesma velocidade da anterior. Mas tem sempre algo estranho nas baladas de Jack. O desespero empregado na voz. A suavidade ácida. Blunderbuss é assim até a alma. A brincadeira na letra. Jack na melhor forma, trazendo algo de novo, mais uma vez. Apaixonante. “You took me to a public place to quietly blend into”
Hypocritical Kiss tem uma introdução apenas piano. E ele leva e cadenciada. Tem o que de 70 nela. As construções de clima que Jack White está cada vez mais fazendo melhor. Um é no Raconteurs . Já a abertura de Weep Themselves To Sleep surge com um que de épica e é anos 70 puro. Mais uma vez o piano presente, pesado quando preciso e marcante, duelando com as guitarras>bels transições, Mais uma das novas faces de Jack. Música para gente grande.
Bom, chega de teclado e piano. Vamos balançar o esqueleto. I'm Shakin’ tem um guitarrão pesado. Ela é um soul rasgado. Ray Charles tocando guitarra. Backings dando o clima. Para ouvir alto e dançar. Já Trash Tongue Talker lembra o velho estilo de Jack. White. Você acha que vai para um lugar e quando vê está em outro. A banda entra deliciosamente e você mais uma vez está dançando no meio da rua.
Hip (Eponymous) Poor Boy é daquelas que parece uma baldainha de criança dos tempos de White Stripes, mas que vai te tomando e quando você vê, está envolvido por ela deliciosamente. “You might think I’m mad / Doing all the things that I don’t need to do / But while you’re laughing at me / Well I’ll be laughing at you”. I Guess I Should Go To Sleep tem levada de musical. Teatral. Jack passeando por melodias e explorando as partes mais obscuras de suas cores. Um blues old school da melhor qualidade desse cara de Detroit.
As duas últimas do disco são: On and On and On, onde Jack vai construindo camadas simples, levantando uma parede espessa e depois romper com a voz suave. Etéreo até a alma. E Take Me With You When You Go, com mais uma introdução simples e brincante de Jack. Só que ela é rock, soul, country, misturada danada, que você meio que dança na levada e depois faz você sacudir a cabeça. Com ela Jack resolve brincar com a palheta de cores inteira e terminar um belo disco.
Quando o nome de Criolo começou a bombar, confesso que tinha um preconceito com o cara. Sem justificativa, apenas porque o ser humano é assim, meio babaca. Mas ouvi uma entrevista d cara na CBN, baixei o disco e tomei uma porrada na cara. Sou paulista, nasci na periferia, ouvia Thaide pra caramba, gostava de Sabotage, admiro os Racionais, Pavilhão achava do caralho, conhecia a cena em SP e me surpreendi com a excelência do trabalho do cara que derruba as fronteiras, surpreende e contagia. Na Fundição, Criolo subiu ao palco protegido por São Jorge e logo colocou a Fundição (o lugar mais quente do planeta) para dançar com “Mariô”. Pronto! A partida que já estava ganha desde a apresentação do cara no Circo, virou goleada. Ai foi só abrir o sorriso - que para rap paulista é difícil - e comandar a festa. A munição do cara vai além do tradicional Rap. tem bolero, soul, samba, african beat e mais uma porrada de sons que fazem você dançar. Não tem como ficar parado quando “Bogota” entra rasgando na pista. Hora de abrir espaço e soltar o esqueleto - que para esse paulista desengonçado é uma tarefa bem complicada, mesmo com a cerveja. NA Fundição teve pra todo mundo. Emicida deu as caras, para desespero do pessoal do Circo ali do lado deve ter ficado meio puto esperando o show do cara começar. E Caetano, com classe, mostrou que pode não existir amor em SP, mas no palco da Fundição teve de sobra. Feliz, o velho baiano saiu ovacionado pela galera. E nem a presença de Caê conseguiu ofuscar Criolo no palco. 90% das mulheres acham o cara um tesão. Os homens respeitam a rimas do cara. Criolo tem talento de sobra para superr guetos e nicho. O cara consegue acabar até acabar com o “chiado” dos cariocas e fazer a galera esquecer o plural cantando alto e dançando até não agüentar mais.
Domingo a entrada estava bem mais calma. Casa não estava cheia e seguiu assim até o fim da noite. Cheguei para ver o Friendly Fires, mas mais ouvi que vi, cheguei no placo só nos minutos finais. Pausa para a cerveja rápida e rumo ao palco Cidade jardim para ouvir o Manchester Orchestra, banda que como o próprio nome diz é de Atlanta, EUA. A banda de Andy Hull toca um rock simples e clássico e segurou bem a hora de show. A chuva ameaçou cair forte, o céu ficou negro, parecia que um tornado iria se formar, mas caiu uma leve garoa, que molhou um pouco e combinou bem com o clima. Fim do Manchester, caminhada até o Butantã para ver o MGMT. Na primeira vez que vi os caras ao vivo, achei eles bem ruins no palco. Domingo, sobre raios e trovões, rezei para algumas horas a força acabar e a banda parar de tocar. Nem os hits do primeiro disco foram capaz de animar - eles parecia sem saco de tocar - e quando Andrew VanWyngarden pegava o violão era desespero na certa. Amigos rumaram para ver o Foster e eu fiquei por ali para ver o Skrillex. Sonny Moore não vai salvar a música, mas sabe fazer uma apresentação divertida. Fiquei no fundo da tenda, com minha cerveja, ouvindo as bases e esperando o show do Jane’s Addiction quando o pessoal do Foster apareceu antes do fim da apresentação da banda. Frase do dia: “Não dá ára um Acra entrar num palco de Lacoste!”. Sai da tenda e rumei para um bom lugar no vazio e quase abandonado show do Jane’s. O dono do festival se empenhou em um bom show, mas como o que imperava no dia era a molecada, uma banda dos 90 era um objeto meio estranho no meio. Nem o shape do Dave Navarro, o guitarrista com o abdômen mais definido do rock foi capaz de atrair as meninas. Agora tenho a certeza que o Dinho estava por lá e vai aparecer de fraque sem mangas e luvas de couro daqui a pouco. Presepadas a parte, o som da banda é foda - principalmente os primeiros discos - e Perry Farrell não economizou na sua própria festa. Saí um pouco antes do show do Jane’s para tentar ver um pouco do Racionais, mas eles atrasaram quarenta e cinco minutos e deixei o lado Butantã do palco para ver de um bom lugar o Arctic Monkeys. Vi os caras na primeira vez que tocaram no Brasil e confesso que sai um pouco decepcionado. Dessa vez não. Não foi o melhor show do festival, tem uma barriga ali no meio, dá uma caída, mas no todo, a banda está mais madura, mais simpática e sabe segurar um hora e meia de show. A primeira meia-hora é sensacional, uma atrás da outra, quase sem dar respiro. Alex Turner virou um grande frontman - com seu estilo rock - e um belo vocalista. Ele sabe comandar uma grande platéia que sabe cantar cada palavra que sai da metralhadora vocal do cara. A banda já não tem mais aquele som cheio de quinas do primeiro disco - que eu adoro - ficou mais melódica, mas não perdeu a força - “Suck it” é um belo disco - e tem uma quantidade de músicas boas que colocam qualquer um para dançar. Quase onze horas quando Alex se despediu depois de “505”, dava para ver a alegria de quem viu um belo show de uma banda no auge. Eu aproveitei o estado de felicidade e ainda tentei pegar os Racionais na tenda Perry, mas só deu para ouvir os últimos acordes do show e a interminável lista de agradecimento da banda. Pena, quem esteve lá disse que foi uma puta apresentação. Fim de festa, só restou rumar pra casa para pegar as sobras do almoço de Páscoa que deixei de lado para curtir um belo festival. O Lollapalooza teve erros sim, mas os acertos foram bem maiores. Os shows foram pontuais, o som estava bom (não estava perfeito), o cerveja estava cara, a comida caída, mas o clima do Festival foi sensacional. Agora é esperar 2013 e torcer para o Arcade Fire estar no na escalação.
Fim de semana em Sampa. Carnaval na Semana Santa. Tem gente que gosta de samba. Tem gente que gosta de forró. Tem gente que ama uma micareta. Eu gosto de rock. Simples, bom, direto. Sem muita frescura. Endereço para essa semana: Jockey de Sampa para a festa do Sr. Perry Farrell.
Dois dias, 9 horas por dia, alguns bons shows, algumas decepções (Omo em todo festival), várias cervejas (mesmo a 8 reais), e diversão. Chegar morto no trabalho na segunda é sinônimo de diversão.
No sábado, cheguei para ver o Cage Of Elephant. Alguém abriu uma garagem e de lá surgiu uns moleques tocando com distorção. Mesmo com o som fraco do Palco Butantã, o Cage fez um belo som, com um pé em Seattle e com direito a dois moshs do vocalista Mattew Shultz. Na bela abertura do dia, nada como uma banda tocando por diversão e empolgando uma galera que sofria no forte calor de Sampa.
No intervalo até o próximo show no Butantã – não me aventurei a ver o Rappa – um pouco de Rhythm Monks, cervejinha, passeio rápido um pouco do show eletro do dono da festa e o tempo voou.
O Band of Horses subiu no palco para tocar um country Rock maduro e honesto. Uma daquelas maravilhosas bandas de bar americanas que você ouve com tranqüilidade. Sem frescura, tocando bem e se divertindo no palco.
Depois, hora de atravessar o Jóquei para ver TV on the Radio. Tenho um problema de dupla personalidade com eles. Tem horas que adoro o som e tem horas que acho chato. Na primeira vez que vi os caras ao vivo, achei bem mais ou menos. No sábado, achei que o placo era grande demais apara a banda.
Mais uma caminhada para ver a titia Joan Jett. Divertidinho,mas menos que no bis do Foo Fighters. Se não fosse no festival, não pagaria para vê-la, mas como já estava lá e precisava pegar uma cerveja.
Hora da verdade. Dave Grohl subiu ao palco exatamente 21h30. E durante 2h30 divertiu os mais de 70 mil lunáticos que estavam lá só para aquele momento. Vi os caras em 2001, no rock in Rio, e posso dizer que esse show foi muito melhor. Primeiro porque o som estava bem mais alto, depois que a banda fechava a noite e pode tocar o que queria.
Presepadas a parte, o Foo Fighters tem um domínio de palco e de público que só as grandes bandas conseguem. Ta, a voz de Dave Grohl não é mais a mesma, mas foda-se. Ainda dá pra gritar muito no show dos caras. Gritar, balançar a cabeça, pular, se divertir e sair com um sorriso na cara daqueles que só um puta show faz você ter.
No set list, porrada atrás de porrada, mega hits, cover do Pink Floyd, algumas do primeiro disco - o longínquo Foo Fithers de 1995 que eu adoro – e muito barulho. Na minha conta, Dave Grohl vai me dever um show pelo resto da vida – Nirvana no Hollywood Rock – mas no sábado ele pagou parte da sua dívida com muita categoria.
Estou ficando velho. Bem velho. Na quarta, fui para o Circo Voador ver o Foster the People. A média de idade era bem, bem jovem. Gente bonita vendo pela primeira vez sua banda preferida. O clima era de entrega total, com a platéia cantando cada música bem alto, vibrando, pulando e gritando muito. Tudo muito bonito, tudo muito legal, mas eu sou um velho chato.
Não dá para uma banda séria ter caras loiros e bonitos assim. Não dá para o vocalista parecer o Justin Bieber. Tudo Califórnia demais, ensolarado demais, feliz demais. Me encheu os efeitinhos, me encheu os sorrisinhos, me encheu esse sonzinho eletrônico que horas lembra MGMT.Desculpe, to sombrio e cinzento demais para o Foster.
Tenho absoluta certeza que 99% das pessoas que estavam na Lapa na quarta amaram o que viram. Não é toda hora que você pode ouvir sua banda preferida, ainda no primeiro disco, tocando no quintal da sua casa, para os seus amigos. Isso faz um show inesquecível. Só que esse velho esqueleto está gasto demais para isso. E quando nem a cerveja salva, o ideal é sair no meio do bis.
“O Pink Floyd é uma banda tão metida e acha seus fãs tão insuportáveis que os caras construíram um muro para tocar sem ver a cara deles”. Essa é uma daquelas frases do rock que ecoam pelo mundo. Ontem, no Engenhão, fui ver o muro do Floyd ser erguido, tijolo por tijolo, comandado por Roger Waters, o criador de The Wall, que humildemente deixou sua banda executar em 1979. Quem gosta de rock, já teve um dia que parar para ver a versão cinematográfica de Alan Parker co Bob Geldof. The Wall não é um show de rock. Trata-se de um espetáculo em dois atos, com aproximadamente 1h50 de duração. O intervalo de 20 minutos dá uma pequena brochada no clima, mas o impacto visual é tão forte que você sai do estádio impressionado. É com certeza a maior superprodução que passou pelo Brasil, muito mais impactante que o super palco do U2. O custo da produção foi de 60 milhões de dólares, um dinheiro muito bem gasto. O impacto da chegada já é grande. Você se depara com um muro em construção, do tamanho do gramado do Engenhão, da altura da arquibancada superior. Quando o show começa, aquela imensidão branca é tomada por projeções perfeitas e um telão de definição impressionante. São milhões de projetores, efeitos de luz, de bonecos gigantes, que acompanham Roger a contar sua história. O Muro é a estrela, mais que a música, é ele que faz você viajar. Tijolo por tijolo, até ser completado, magnífico, intransponível, fechando o primeiro ato. Depois vira um grande cenário, com projeções espetaculares, pedaços das animações de Gerald Scarfe, jogos de luzes, enormes telas com figuras bizarras, concreto tomado por pichações, por sangue, símbolos, uma gigantesca estrutura opressora que deixa a banda como pequenos habitantes de Lilliput.Tudo chega a um ponto tão colossal que cai por terra. Fim do segundo ato. O Impacto visual é maior que o sonoro. O som no Engenhão beirou a perfeição, o efeito quadriofônico colocou cada espectador no meio da ação, mas algumas dúvidas me tomaram. Achei que tinha muita base pré-gravada e que algumas horas a cara de playback era forte. Muito efeito, tudo cristalino demais. Para quem era acusado na banda de não saber cantar, Roger Waters segurou bem demais o show inteiro alguém pensou em correção digital de vocais? A execução do disco foi perfeita e durante a viagem, você pensa como David Gilmour é sensacional. Os solos e riffs que ele produziu no Floyd são lendários. No show, os vocais do guitarrista e vocalista oficial do Floyd são feitos Robbie Wyckoff, os sensacionais solos são milimetricamente respeitados por Dave Kilmeinster, GE Smith e Snowy White. The Wall foi lançado em 1979, vendeu mais de 20 milhões de cópias e tem um set list que emociona. Não tem como não se encantar por canções como: “The Thin Ice”, “Another brick the Wall”, “Mother”, “Goodbye Blue Sky’, “Hey you”, “Vera”, “Comfortably Numb” e “Run Like Hell”. Ontem, no Engenhão, elas emocionaram 40 mil pessoas, que viram um espetáculo para ficar na memória de quem gosta de música.
Ontem, na sala de cinema, enquanto assistia ao documentário "Raul? O início, o fim, o meio", de Walter Carvalho, procurava a minha primeira lembrança de Raul Seixas. Acho que foi em algum janeiro, de férias em Caraguatatuba, por meio de um amigo mais velho, o Arnaldo. Se não me engano, a primeira coisa que ouvi de Raul e registrei foi "Mosca na Sopa". Lembro de moleque, ouvindo aquela mistura entre rock e baião, uma coisa maluca.
Acho que meu gosto por sons não muito comuns nasceu dessa audição. A liberdade da mistura de tudo, de colocar tudo no liquidificador e ligar o foda-se não veio da Tropicália, para mim, isso nasceu nesse baiano, numa fita Basf 90, laranja, com "A Arte de Raul Seixas". Isso foi bem antes de eu ouvir com atenção Gil, Caetano, Mutantes, Tom Zé.
E além, da mistura, Raul ainda tinha uma sacanagem que qualquer moleque gosta. Aprendi o "Rock das Aranhas" muito antes de ouvir a gravação. Era daquelas cosia que a gente gostava de cantar.
Durante quase toda a adolescência, me apaixonei muito por Raul e comprei quase todos seus discos. Ouvia direto em casa direto. Achava sua poesia deliciosa e suas misturas impressionantes. Os mega clássicos de Raul "Gita", "Sociedade Alternativa" me eram bem menos interessantes que músicas como "Sessão das Dez", "A Maçã", "A Hora do Trem Passar", "Al Capone", "Medo da Chuva", "Tu Es o Mdc da minha vida" "Tente outra vez" e o mais bela de todas "Ouro de tolo", que no documentário merece delicioso depoimento de Caetano Veloso.
O que Raul produziu em "Krig-há Bandolo!", "Gita" e "Novo Aeon" é impressionante. A quantidade de coisas boas nesses 3 discos é para deixá-lo entre os grande da música para sempre. Mas são poucos que realmente valorizam a obra do cara como deveria. Raul é subestimado por aqueles que "entendem" de música. Ele era direto demais, com um uma simplicidade difícil demais de encontrar em um poeta. Por isso Raul é tão popular sem nunca ser popularesco. Raul falava fácil com todos, mas basta prestar um pouco de atenção, você vai se deparar como obras extremamente bem estruturadas. É difícil demais ser tão complexo e parecer tão simples.
Mas Raul morreu, virou folclore e nasceu um mito torto, rasteito. O que sobrou foram os covers fáceis, como os de Elvis - ídolo de Raul - sempre barrigudos e decadentes. Os resgates de sua obra forma fáceis e superficiais. Discos, shows, homenagens caça-niqueis de uma obra muito maior que apenas "Maluco Beleza". Se fosse só isso já seria do cacete, mais ainda bem que não é.
E o documentário de Walter Carvalho não tem medo de mergulhar no complexo mundo de Raul. Não tão bonito quanto a lenda poderia ser, bem mais cheio de nuances que a figura bêbado-maluco beleza. Os conflitos com os parceiros, as relações difíceis relações com as mulheres, com as filhas, as criações, a genialidade, os vícios, estão lá, expostas para a conclusão do espectador. No documentário, Raul não é vilão nem heróis é apenas Raul..
Quando ele voltou ao palco, em 1989, para uma turnê de com Marcelo Nova, eu tive a chance de ver Raul ao vivo pela primeira e última vez. Ele era um homem cansado, debilitado, mas a força de ver aquele cara no palco, cantando, foi foda. Mesmo perto da morte, Raul no palco era um showman. Quase sem se mexer, quase sem agüentar o peso da sua guitarra, frágil no corpo, mas um gigante no carisma. Minha impressão, de moleque de 16, 17 anos, no Olympia, foi a mesma de Caetano no Canecão. Marcelo deu a chance de Raul viver no seu habitat mais uma vez. Ainda bem que pude estar lá.
ps - o que é o pessoal dançando atrás do Raul no Faustão?
Há duas semanas fui pouco empolgado ao Circo Voador ver Marcelo Camelo. Condfesso que os trabalhos solos do Hermano não me empolgaram e achava que seria uma noite chata. Só não troquei o programa porque o ingresso já estava na mão. Rumei para a Lapa desconfiado e munido de vários tickets de cervejas. Mas a surpresa foi super agradável, apesar do xilofone no palco (não sei por que, mas não consigo gostar de xiolofone e não sei por que alguém precisa de um). Marcelo tem o domínio total da platéia. É bonito parar de olhar o palco um pouco e observar as reações de quem esta vendo o show. Lágrimas, gritos, sorrisos, barcos ao ar, olhos brilhando, bocas mordidas, devoção. E esse clima contagia, te leva junto para a celebração coletiva. A segunda surpresa são as músicas, muito melhores e com muito mais vivas num palco. Ouvir Camelo ao vivo faz você querer ouvir mais uma vez os discos que você deixou de lado, perdido no i-pod. E além das solo, “Cara Valente” - conhecida na voz de Maria Rita - algumas do Los Hermanos - as mais celebradas e berradas - e a nova “Luzes da Cidade” - homenagem ao Rio. Marcelo definiu o clima do Circo como de cantina de colégio e soube fazer desse longo intervalo de quase uma hora e meia e 22 músicas, um delicioso recreio. E para quem dúvida do poder do moço, perto do bis, ele ofereceu as samambaias do cenário de presente ao público , acredite, teve gente que ficou mais de 15 minutos segurando a planta no meio da galera e ainda pegou ônibus com ela. Isso que é ser ídolo.
Quem não teve medo da chuva e esteve no Circo Voador ontem para o show de Erasmo Carlos, com certeza saiu de lá feliz. O público era eclético, de senhoras de 60 a moderninhos, passando pro quase qualquer figurinha que você possa imaginar. Prova que em 50 anos de carreira, Erasmo soube fala r com todo mundo, pelo menos em algum momento. O grande Erasmo, com seus poucos cabelos brancos, mostrou que sabe muito de música e que sabe ainda mais de Rock. No set list, algumas do novo disco “Sexo”, duas do belo trabalho anterior “Rock & Roll” e mais: “Gatinha Manhosa”, “Mulher”, “Pega na Mentira”, “Sentado a Beira do caminho”, “É preciso saber viver”, “Sou uma criança”, “Super star”, "Mesmo que seja eu” e mais uma porrada de sucesso. Mas o melhor do show é a sessão motel, onde Erasmo, apenas acompanhado do piano, canta trechos dos clássicos de Roberto & Erasmo como: “Cavalgada”, “Café da manhã”, “Detalhes”, todos cantados pela galera aos berros. Divertido, ousado e bem acompanhado, Erasmo mostrou ao Circo o domínio de quem tem 50 anos de carreira e o frescor de quem aprendeu a se re-inventar. Ele não tem problema de cantar o “Mal” e nem de mandar “tudo pro inferno” - com absoluta certeza, Erasmo é o lado legal do Rei. O que vale para ele é estar no palco, mostrando o que sabe faz de melhor. A voz ainda segura o show e as músicas são clássicos da MPB. Erasmo tem carisma demais e brindou aos que se aventuraram pela Lapa nessa sexta, com o respeito e a energia que só os grandes têm.
Em 6 de janeiro de 1988, eu fui ver a primeira noite Hollywood Rock no Morumbi para ver The Pretenders. Eu gostava da banda de Chrissie Hynde, mas o que me levou ao estádio aquela noite foi ver Johnny Marr tocar. Era o guitarrista dos Smiths em solo brasileiro e eu não poderia perder.
Ontem, 9 de março de 2102, 24 anos depois de ver Marr, vi a outra metade da alma dos Smiths. Steven Patrick Morrissey subiu ao palco da Fundição Progresso com alguns minutos de atraso, mas quem esperou 24 anos para ver esse cara cantar – muito mais que a vida de parte da platéia que estava na casa – dez minutos a mais não fizeram diferença.
O cara é um band leader. Esse senhor de 52 anos sabe como se mexer no palco e faz com que você não consiga tirar os olhos dele, mesmo com a afinada banda vestida somente de cueca e com um guitarrista com um “discreto” vestido azul brilhante.
Quando os primeiros acordes de First of the Gang Die, a platéia estava entregue. Se as gravadoras não o querem, o lado sul do Equador o idolatra. Lágrimas, palmas, gritos, tudo que um ídolo pó merece. E o melhor, com um talento que fez mais de uma geração encontrar suas angustias e desejos em sua poesia.
A carreira solo de Morrissey é de altíssimo nível. Seus últimos 3 discos são uns dos melhores feitos na década passada. Só que esse senhor era “apenas” o vocalista do Smiths e produziu ao lado de Marr, clássico. Por isso, é de se entender, que a Fundição fosse abaixo quando ele cantou suas obras dos 80. Ainda bem que ele fez as pazes com sua história.
A banda é competente demais e até o pavoroso som da Fundição estava aceitável, algumas vezes a bela voz de Morrissey ficava coberta pelo som, ma, no geral, você podia ouvir Morrissey cantar e bem. Quando resolveu conversar a platéia, elogiou a beleza dos 3 sexos dos cariocas, disse que o príncipe Harry estava aqui para roubar o nosso dinheiro e fez comentários com um típico humor inglês.
O show pode até ter uma pequena queda, lá pelo meio, mas isso não é problema. Quando um show termina com “There is a light never goes out”, “I’m throwing my arms arround Paris”, “Please, Please, Please, let me get what i want” e “How soon is now?”, além de “One Day goodbye Will be farewell”, não tem como não sair com um belo sorriso.
Vindo para o trabalho, nessa quarta de cinzas, me deparo com a reclamação do lixo espalhado pelas ruas do Rio depois dos blocos de carnaval. Muita gente reclamando da Comlurb. Pode ter falha no sistema de limpeza da cidade. Hoje, perto da Cobal do Leblon, tinha muito lixo espalhado, mas não credito todo o erro à prefeitura. A gente é porco mesmo. Não temos o mínimo cuidado com o nosso lixo. Fazemos de locais públicos - ruas, praças, praias - depósitos do nosso lixo, que não temos vontade de recolher. Já passou em alguma praia as 5 horas, depois de um dia de sol? E retornou depois do trabalho dos garis? Sim, é obrigação da prefeitura limpar a cidade, mas um pouco mais de educação faria o trabalho ser bem melhor. Neguinho deixa qualquer coisa espalhada na areia, jogada no chão, Outro dia, uma caminhonete nova, daquelas que valem mais de 300 mil reais, despejou seu lixo pela janela, bem em frente ao Batalhão do Leblon. Semana passada, um ser parou seu carro importado em frente ao Bibi do Leblon, sobre a faixa de pedestre e, ao sair da loja, jogou o copo de suco debaixo do carro, isso a menos de 1 metro de um lixo. E isso não é uma exceção. Enquanto não aprendermos a cuidar do coletivo, enquanto fomos porcos e ligarmos o foda-se, não teremos solução. Como explicar mais de 500 pessoas presas por urinar na rua?
Rapidinho. O que aconteceu ontem no Anhembi é ontem é ridículo. Na boa, o jovem que rasgou as notas já era um exemplo de comportamento antes de sair saltitante pelo sambódromo depois de dar uma voadora no narrador. Hoje, no rio, tem apuração, e as reclamações de resultados armados, de carnaval de resultado, etc. Fico tranqüilo, porque os organizadores do carnaval tem um histórico de uma vida pública limpa.
E pra fechar. Que bunda é essa? O Silicone é uma coisa mágica.